Arquivo da categoria: Viagens

San Francisco vs. New York

Duas grandes cidades, duas personalidades distintas.

http://www.huffingtonpost.com/sarah-cooper/the-difference-between-living-in-new-york-and-san-francisco_b_7184874.html

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Cidades são para perder-se

Rota em GentEste texto de Stephanie Rosenbloom para o NYT levanta um ponto interessante e válido. De fato, cidades são (também) feitas para perder-se, e esta é, de fato, uma arte esquecida ultimamente. Possuo afinidade com o ponto de vista da autora, tanto no seu contexto original quanto transportado para um outro.

Primeiro, quando viajo para outra cidade, especialmente se for em outro país, não gosto de roteiros nem excursões: parecem-me limitadores, uniformizadores e opressivos. Alguém se arroga o direito de decidir o que você deve ver, do que você deve gostar, como se deve deslocar. Transforma o viajante num mero ponto estatístico, confortavelmente alojado junto com outros pontinhos numa dispersão próxima ao redor de um valor médio — “médio” significando, muitas vezes, medíocre. (Isso pode mudar de figura, é claro, até por uma questão de segurança e prudência, quando você faz uma viagem para uma região inóspita e desconhecida, não-urbana, como uma trilha na mata, uma montanha, reserva natural, ou trajeto de lancha, etc. Andar por ali sem um guia seria brincar com a sorte.)

De minha parte, só costumo levar o mapa (ou ligo o mapa do celular) para me ajudar a encontrar o caminho de volta para o hotel. Fora isso, os verdadeiros tesouros que deparamos ao vagar livremente, e que assumem real significado para cada um de nós vagantes — embora talvez não correspondam à “média” — mais do que fazem valer a pena os desvios e volteios sobre os próprios passos.

Em segundo lugar, nas inumeráveis caminhadas por São Paulo, descobri igualmente inumeráveis lugares que jamais teria conhecido se me restringisse ao GPS ou ao Waze, ou então ao carro — que tem o efeito de transformar a cidade em que vivemos (note-se: a cidade em que vivemos!) em um mero complexo viário imenso, um simples corredor de passagem, um amontoado de edificações ao redor das avenidas. As avenidas, afinal, parecem ser hoje em dia “o que realmente importa” para nos deslocarmos — não mais nos deslocarmos de A para B, como acontecia ao longo dos milênios em que a espécie humana já viveu sobre a terra, mas sim, agora, do estacionamento em A até o estacionamento em B…

Teotihuacan, o design da água

Atraves_1_1983_Martins_FontesUm texto bem especulativo de Décio Pignatari (1927-2012) sobre Teotihuacan (da qual já falei neste blog), publicado no número 1(1983) da revista Através — ainda na edição da Martins Fontes; depois este título passaria a sair pela Duas Cidades.

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Dia de los Muertos na Ciudad de México

O Dia de los Muertos no México (2 de novembro) começa a ser celebrado vários dias antes da adata oficial. No final de Outubro já pude ver a decoração pela Cidade do DF, nas lojas e por todos os lugares, com enfeites de papel e muitas caveirinhas e esqueletinhos.

Os pessoal leva o humor, a paródia e a ironia muito a sério. Mergulham no simbolismo de uma maneira muito peculiar — que nós de outras partes demoramos para começar a compreender. Eles também aproveitam para começar a celebrar cedo em eventos artísticos, gastronômicos, escolares, etc, como já comentei em um post anterior.

Eles se dão cartões como estes:

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Outros exemplos flagrados em diferentes partes da cidade:

Aqui, uma autêntica muerta fashion, em uma das lojas chiques da Avenida Álvaro Obregón…

As lojas, restaurantes, baladas e até a propaganda nos pontos de ônibus se valem o simbolismo associado aos mortos.

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Até o centro de convenções da universidade em que aconteceu o meu congresso estava enfeitado para o Dia de los muertos:

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Passeios na Cidade do México

Zócalo. No final de Outubro/2012 estava ocorrendo a Feria del Libro del Zócalo. O Zócalo é a região no centro histórico da Cidade do México onde estão as ruínas da capital asteca de Tenochtitlan, sobre as quais foi erigida a cidade moderna. Estas ruínas foram redecobertas a partir do final dos anos 70 do século XX. Porém o mais espetacular não foi a feira do livro!

Um fato singular e bem marcante que acontece regularmente no Zócalo é que os jovens, garotos e garotas, se reúnem à noite nas ruas próximas, provenientes de várias partes da cidade, e passam horas numa espécie de ‘jam’ executando as danças tradicionais, em rodas com números maiores ou menores de integrantes, com chocalhos nos tornozelos, numa velocidade vertiginosa, extenuante, e com um vigor extraordinário.

Os defumadores exalam incessantemente olores e vapores fortíssimos, a percussão pulsa fazendo tudo vibrar a centenas de metros, em um contraponto com o suingue dos chocalhos, e a dança prossegue inalterada, hipnótica, por horas, fazendo com que os participantes entrem num verdadeiro transe. É uma visão e tanto. Uma escuta e tanto. Depois de alguns minutos assistindo aquela máquina humana coordenada girando, até nós, espectadores, começamos a ficar meio zonzos…

Infelizmente, não consegui captar boas imagens, nem sabia como gravar áudio para tentar dar aqui uma idéia das potências telúricas que aquela garotada consegue conjurar de dentro das ruínas ancestrais…

Universidad del Claustro de Sor Juana Inés de la Cruz. Aqui, no dia 25/10, assisti a um concerto da dupla Mardonio Carballo (ator e textos) e Juan Pablo Villa (voz, objetos sonoros e loops eletrônicos). Foi um show extraordinário, que pegou a todos de surpresa, uma experiência sônica, poética e teatral absolutamente inesquecível. Escreverei com mais detalhe sobre esse concerto em breve no meu outro blog Usina de Escuta.

A Universidad del Claustro — onde nós (os participantes do congresso) fomos muitíssimo bem recebidos pela vice-reitora Sandra Lorenzano, irmã de um dos participantes do congresso — tem uma intensa programação cultural. E a universidade também mantém um restaurante-escola de gastronomia.

Na ocasião, houve a inauguração da cenografia relativa ao Dia de los Muertos, cheia de alusões bem-humoradas, homenagens e paródias, comidas tipicas (Pan de Muertos)…

As duas principais homenageadas, no centro, eram Sor Juana e a atriz Maria Félix:

As outras homenageadas eram:  Frida Kahlo, Rita Guerrero, Antonieta Rivas Mercado, Malinche o Malintzin, Chavela Vargas, La Güera Rodríguez, Josefa Ortiz de Domínguez, Pita Amor, María Sabina, Rosario Castellanos, Leonora Carrington e María Izquierdo.

Tanto o auditório quanto o pátio externo do Claustro estavam completamente lotados. É um lugar que normalmente já atrai muita gente, e com razão — e ainda mais numa festança daquelas.

Na mesma Universidad del Claustro, no pátio / jardim central, também assisti a uma performance de duas jovens atrizes, Minerva Hernández e Myriam Beutelspacher, intitulada “Empatia”.

Em breve: o Museu Nacional de Antropologia — e mais de Teotihuacan.

Galáxias no metrô

O metrô da Cidade do México é grande, comparado com o de São Paulo: tem 200km de extensão e, em combinação com o ótimo Metrobus, torna realmente fáceis muitos deslocamentos. Em uma das estações, La Raza, túneis longuíssimos fazem a conexão entre linhas — e o mais interessante: funcionam como espaço para exposições permanentes e temporárias, o chamado Tunel de la Ciencia. Nada mau fazer a sua transferência em meio a uma abóboda celeste simulada,  imagens da radiação de fundo de microondas, evolução estelar, colisões de galáxias…

A estação também tem um espaço mais convencional para abrigar exposições científicas de diversos tipos. No canto esquerdo da foto, aparece uma das atenciosas monitoras que recepcionam o público.

Caminhada de uma vida: Pirâmides de Teotihuacan

Este é o primeiro post de uma série relativa às caminhadas e descobertas feitas durante a minha viagem ao México, na semana de Outubro de 2012, para um Congresso de Filosofia. Logo no dia seguinte à minha chegada, antes de começar o congresso, tratei de tirar o dia para visitar as famosas pirâmides de Teotihuacan. Os versos gravados na entrada da Sala 5 do Museu Nacional de Arqueologia captam o espírito do que lá se verá…

Ir até as pirâmides não é difícil. Fui de metrô desde o bairro em que estava localizado o hotel (entre Colonia Condesa e Colonia Roma) até a estação Autobuses del Norte, que fica junto ao gigantesco terminal rodoviário. Ali, encontrei o guichê da companhia Autobuses Teotihuacan e comprei a passagem de ida por 38,00 pesos mexicanos. Os ônibus saem a cada 15 minutos (e na volta também). Somando metrô e estrada, em uma hora estava na entrada do parque.

O ônibus de ida era uma lata velha, talvez não tão antigo quanto as pirâmides, mas quase… (Verdade seja dita, o ônibus da volta seria muitíssimo melhor.) Na ida, nada de ar condicionado (mesmo naquele tempo seco e quente), e parava em vários pontos para pegar passageiros. Poderia ser melhor, mas, enfim, tudo pelas pirâmides. Pegamos trânsito pesado para sair da cidade. Passando pelos limites da área metropolitana da Cidade do México, pode-se divisar muitas ocupações irregulares nas encostas dos morros.

O ingresso no parque custava 57,00 pesos mexicanos. Muitos vendedores ambulantes se distribuem ao longo de toda a área; os que ficam logo na entrada, no acesso para a Pirâmide do Sol,  são os mais insistentes. Se quiser comprar alguma lembrança, não compre logo de cara com os primeiros que se apresentam. Deixe para mais tarde (o melhor é deixar para o final) e, mesmo assim, pechinche.

Abaixo, detalhes do templo, ostentando várias instâncias de Quetzalcoatl, a serpente emplumada.

Não podemos deixar de nos extasiar com a magnificência do complexo, cujos primeiras edificaçõres datam do ano 200 a.C. A Pirâmide do Sol, que domina o conjunto, foi concluída por volta do ano 100 da nossa era, e a cidade de Teotihuacan atingiu o seu ápice por volta de 450 da nossa era.

Ao mesmo tempo, muitas perguntas nos intrigam: qual era exatamente o propósito daquele traçado urbanístico? E das plataformas elevadas? Que hierarquia, que estrutura social caracterizava a comunidade que ali viveu? Que eventos eram celebrados? Que extraordinário grau de poder devem ter possuído os sacerdotes e os governantes para mobilizar o imenso contigente humano, a vasta força de trabalho necessária para transformar em realidade o monumental projeto? Quantas vidas devem ter se perdido ao longo de todo o processo de construção? Finalmente, quanto sangue de sacrifícios humanos terá corrido por aquelas pedras? (Sabe-se que os teotihuacanos possuíam essa prática.)

Aqui está a grandiosa Pirâmide do Sol.

Aqui, outro ângulo da majestosa Pirâmide. Subir não é tão difícil: o que exige mais concentração é a descida.

O último lance de escada estava interditado.

Para quem se sentir menos seguro nos incontáveis degraus, existem corrimões.

A visão lá de cima. Embaixo, um grupo de dança começa a acender seus defumadores fortíssimos, cujo cheiro enche toda a área, e a se preparar para uma apresentação.

Da Pirâmide do Sol, olhando aproximadamente na direção Sudoeste.

Duas vistas do cimo da Pirâmide do Sol: a primeira, para Sudoeste; a segunda, na direção Noroeste, permite ver um longo trecho do Caminho dos Mortos.

Finalmente, a Pirâmide da Lua — que será tema para outro post — vista da Pirâmide do Sol, olhando para o Norte.

Pude ver muita gente que, longe de estar bem condicionada para a subida, esfalfava-se para chegar ao cimo, e depois ficava ali, ofegante, por longos minutos lá em cima. Mas como poderia alguém resistir à tentação? É uma chance única, a de galgar os degraus imemoriais.Vale o sacrifício. Vi algumas pessoas colocando “os bofes para fora”, mas felizmente, enquanto estive lá, não vi ninguém passar realmente mal.

Para concluir este post, o Sol visto do alto da Pirâmide do Sol. O mesmo Sol que, certamente, foi tantas vezes admirado e celebrado pelos povos ancestrais que palmilharam Teotihuacan.

Novos posts virão…