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Brincando com o Google Earth, Parte 2

Em um post anterior, examinamos como o Google Earth exibe locais como o Pico do Jaraguá e a Serra do Mar. Agora, radicalizemos. Para ver como o Google Earth lida bem com o relevo, vejamos o que acontece no caso deste “morrinho” aqui. Quem encara uma caminhada por estas bandas, levante a mão. 🙂 Não tem estacionamento nem serviço de valet por perto… 🙂

Nada mau, hem? Claro que, como se trata de uma região muito especial da superfície terrestre, o Google Earth mobiliza dados de GIS (Graphical Information System) muito detalhados, para construir seu DEM (Digital Elevation Model) e exibir a renderização — o que não ocorre com o mesmo detalhamento relativamente a todos os locais. É interessante observar como os créditos mudam à medida que a gente move os controles. Imagine a quantidade de dados digitalizados que são necessários, e de quantas fontes diferentes eles são obtidos.

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Pico do Jaraguá e Usina Henry Borden com o Google Earth

O Google Earth permite fazer uma subida virtual ao Pico do Jaraguá. Já fiz essa subida na realidade por duas vezes — sempre a pé, é claro — e espero nestas férias de verão 2011-2012 fazê-lo de novo. São 5 km de pura subida, antecedidos de um trecho de 1 km desde a Vila Nova Esperança, na Estrada Turística do Jaraguá, até a entrada do Parque. Um caminho muito agradável, as árvores quase se fecham por sobre a estrada, formando um túnel. Em uma das vezes, o tempo que fazia no dia combinava garoa e sol, condições absolutamente perfeitas para uma caminhada como essa.

Veja com o Google Earth como é o caminho. (Você precisa ter o plugin gratuito instalado.) Clique no link “View Larger Map” abaixo da imagem e, na janela que se abre, clique no botãozinho chamado “3D”. O Google Earth simula bem o relevo. Dando uma pausa (botão no canto inferior esquerdo) e usando o controle do olhinho, é possível dar um giro de 360 graus no topo do pico e ver toda a cidade em volta.

Com o Google Earth pode-se simular os roteiros mais variados. Por exemplo, uma excursão de Santo André (Praça IV Centenário, onde fica a prefeitura) até o pé da tubulação da usina Henry Borden, em Cubatão — uma incrível obra de engenharia, já por si mesma uma visita que merece ser feita. De novo, é muito interessante o modo como o Google Earth trata o relevo — no caso, a descida da Serra do Mar pela Anchieta. (Claro, este é um trajeto longo e íngreme demais para uma caminhada comum.) Muito mais bacana do que qualquer GPS.

A cidade tridimensional

Só comecei a ter realmente consciência do relevo e da superfície da cidade — a paisagem, como diz o geógrafo — quando passei a caminhar por ela. É como se o deslocamento por meios motorizados fosse gradualmente suprimindo uma dimensão inteira do espaço da cidade — a dimensão vertical. É como se o carro reduzisse a cidade a uma superfície meramente bidimensional, que precisa apenas ser cruzada de lá para cá. Como no mindset motorizado somente o destino importa, o percurso em si — com toda a riqueza de seus ‘acidentes’ geomorfológicos e seus múltiplos pontos de vista — passa a ser relegado ao estatuto de mero transtorno, apenas mais uma amolação.

A Avenida Sumaré...

... entre as colinas do bairro.

O caminhante, por outro lado, é capaz de recuperar essa dimensão suprimida. As colinas da Pompéia e de Perdizes, o sobe-e-desce da Vila Madalena, as encostas dos vales na Freguesia, no Alto da Lapa e em Pinheiros… Tudo isso dá às caminhadas uma riqueza, uma variedade extraordinária. É possível sentir a cidade, mais do que atravessá-la.

Mapa de relevo do Atlas Ambiental do Município de São Paulo (aqui o negativo, pois o positivo resulta difícil de visualizar)

A cidade de São Paulo tem, na realidade, uma estrutura que, em termos gerais, é aproximadamente a seguinte. O todo da região metropolitana faz parte do planalto atlântico. A região central da cidade é um espigão central cujas duas faces ou vertentes mais nítidas — norte e sudoeste — descem até as planícies dos dois principais rios, dividindo as suas bacias — o Tietê, que corre no sentido leste-oeste, e o Pinheiros, no sentido oeste-sul (após a inversão. A região da rua Cerro Corá, por exemplo, permite enxergar, a partir de uma mesma posição, os vales do dois rios, conforme se olhe para o norte ou para o sul.

O espigão central é perfurado artificialmente pelo túnel da avenida Nove de Julho.

A planície aluvial do Tietê, muito mais ampla do que a do Pinheiros, recebe também o desaguar dos rios Tamanduateí e Aricanduva, que correm quase paralelos na direção sudeste-norte. A vertente direita do Tietê (Casa Verde, Freguesia do Ó, Santana) e a vertente esquerda do Pinheiros (Morumbi, etc) são formadas por colinas altas e flancos íngremes, num perfil muito diferente das outras vertentes (o Butantã e a Cidade Universitária são exceções a essa regra). Os meandros labirínticos originais do Pinheiros, ao longo do vale, foram todos suprimidos pelas obras de retificação. Como sabemos, o sentido do rio pode ser invertido e “desinvertido” pela usina elevatória da Traição e pela barragem instalada no Tietê. (Quando a poluição ainda não era tão assustadora, podia fazer sentido levar a água do Pinheiros para a represa Billings, para reforçar a geração de energia por meio da Usina Henry Borden, no pé da serra, em Cubatão — hoje já não mais.)

O Pico do Jaraguá e a Serra da Cantareira...

...vistos do Alto da Lapa, perto da Ponte Anhanguera.

O sítio todo da área metropolitana está encaixado entre os contrafortes da Serra da Cantareira, ao norte — com o ponto extremo, o Pico do Jaraguá, a noroeste — e o maciço da Serra do Mar, ao sul.  Do bairro da Lapa se pode ver com clareza a Cantareira abraçando toda a região oeste. De alguns pontos da área metropolitana é possível enxergar as duas serras ao longe — por exemplo, na Paulista ou nas partes mais altas de Santo André.

O clássico livro do geógrafo Aziz Ab’Saber, Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo (aliás uma obra de juventude), funciona como um guia nesse processo de reeducar a nossa percepção.

Ter consciência dessa tridimensionalidade, do relevo da cidade nos ajuda até a nos orientarmos quando acontece de nos perdermos. Para onde a face desta colina está voltada? Para o lado de lá? Então para lá deve estar o rio tal, logo aqui em frente deve ficar o bairro tal, ao lado o bairro tal, daqui posso chegar a tais avenidas e praças… E assim por diante.

A cidade é um texto. A sabedoria ancestral das águas que já correram por toda esta região, ao longo de milhões de anos, tratou de deixar para nós esses marcos, esses indicadores gravados. Precisamos voltar a lê-los.