Arquivo da categoria: Paisagem urbana

Infográficos sobre São Paulo

O cara tem “as manha” de fazer infográfico, meu!

Veja todos os dez: http://www.buzzfeed.com/rafaelcapanema/graficos-para-entender-sao-paulo?bffbbrazil&utm_term=.awnXG5y3l#.lbk1xX6G7

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Cidades são para perder-se

Rota em GentEste texto de Stephanie Rosenbloom para o NYT levanta um ponto interessante e válido. De fato, cidades são (também) feitas para perder-se, e esta é, de fato, uma arte esquecida ultimamente. Possuo afinidade com o ponto de vista da autora, tanto no seu contexto original quanto transportado para um outro.

Primeiro, quando viajo para outra cidade, especialmente se for em outro país, não gosto de roteiros nem excursões: parecem-me limitadores, uniformizadores e opressivos. Alguém se arroga o direito de decidir o que você deve ver, do que você deve gostar, como se deve deslocar. Transforma o viajante num mero ponto estatístico, confortavelmente alojado junto com outros pontinhos numa dispersão próxima ao redor de um valor médio — “médio” significando, muitas vezes, medíocre. (Isso pode mudar de figura, é claro, até por uma questão de segurança e prudência, quando você faz uma viagem para uma região inóspita e desconhecida, não-urbana, como uma trilha na mata, uma montanha, reserva natural, ou trajeto de lancha, etc. Andar por ali sem um guia seria brincar com a sorte.)

De minha parte, só costumo levar o mapa (ou ligo o mapa do celular) para me ajudar a encontrar o caminho de volta para o hotel. Fora isso, os verdadeiros tesouros que deparamos ao vagar livremente, e que assumem real significado para cada um de nós vagantes — embora talvez não correspondam à “média” — mais do que fazem valer a pena os desvios e volteios sobre os próprios passos.

Em segundo lugar, nas inumeráveis caminhadas por São Paulo, descobri igualmente inumeráveis lugares que jamais teria conhecido se me restringisse ao GPS ou ao Waze, ou então ao carro — que tem o efeito de transformar a cidade em que vivemos (note-se: a cidade em que vivemos!) em um mero complexo viário imenso, um simples corredor de passagem, um amontoado de edificações ao redor das avenidas. As avenidas, afinal, parecem ser hoje em dia “o que realmente importa” para nos deslocarmos — não mais nos deslocarmos de A para B, como acontecia ao longo dos milênios em que a espécie humana já viveu sobre a terra, mas sim, agora, do estacionamento em A até o estacionamento em B…

Artistas e a cidade

Compartilho aqui no blog alguns exemplos interessantes e bonitos de telas que, pelas mãos de dois artistas, Margaret Dyer e Tony Allain (ambos estão no facebook), utilizando a mesma técnica (o pastel), exploram o tema da cidade contemporânea:

Margaret Dyer – 1:

Margaret Dyer – 2:

Margaret Dyer – 3:

Tony Allain – 1:

Tony Allain – 2:

Tony Allain – 3:

São Paulo e Buenos Aires, a comparação

Aqui, destacamos a versão “Cone Sul”, criada por Vivian Mota, daquele outro exercício feito por Muratyan sobre Paris e New York, objeto do post anterior. Esta versão, movida pela eterna (e carinhosamente cultivada) rivalidade BRA/ARG, é graficamente mais minimalista, fazendo alguns trocadilhos visuais. Parece menos pretensiosa e “moderna” também. Podemos não concordar com todos os paralelos e/ou contrastes propostos pela designer, mas, de todo modo, é outro exercício bem divertido.

Confira a íntegra do ensaio aqui.

Paris e New York — a comparação

Paris versus New York: a tally of two cities. Criado por Vahram Muratyan, este blog/livro é certamente perspicaz e bem realizado. No entanto, ele apresenta um olhar um tanto pretensioso e afetado, decididamente ajustado para agradar aos “modernos”, e excessivamente orientado para temas de moda. Mas é divertido mesmo assim. Vale uma olhada atenta para tentar ‘pescar’ as conexões e as ironias, às vezes não tão óbvias.

Confira a íntegra aqui.

The Bus

As situações surrealistas, a quase total ausência de texto, o humor sutil, o traço de inspiração setentista e a onipresente imagem do ônibus, tudo isso nesses verdadeiros hai-kais visuais — ou, se quisermos, estes curtíssimas-metragens-feitos-quadrinhos — de Paul Kirchner na série “The Bus”.

Não saia mais de Moema?!?!?!

Não posso deixar de pensar no quanto uma recente campanha publicitária que está sendo veiculada, de algo que se denomina “Moema Tem”, coloca valores que são completamente opostos ao espírito de busca da cidadania-na-cidade — defendido por este blog — espirito que, a propósito, vem se manifestando fortemente na atual onda de mobilização popular. São vários spots, divulgados massivamente já faz algum tempo no rádio (ouvi na Band news fm, mas pode estar em outras). Quando ouvi o primeiro, pensei ter ouvido mal, ou no mínimo esperaria que o absurdo fosse corrigido nos próximos. Mas outros spots vieram, e todos terminando invariavelmente com a frase: “Acesse — e não saia mais de Moema!“. Você, leitor/a, talvez já tenha ouvido a moça cantando e terminando com essa frase.

Ora, essa é uma maneira terrível de pensar. Ela remete a uma visão de cidade, de espaço urbano, de vida, que contribui para o círculo vicioso trerrível em que se encontra São Paulo. A mensagem que está sendo passada por eles é, mais ou menos, esta:

Vamos, isole-se. Fique ilhado, no seu vale encantado, no pedacinho de Bélgica encravado dentro de São Paulo, moderno e descolado, todo com ar condicionado, blindado por sistemas de segurança. E aí não vai precisar sair e ter contato com essa gente feia e pobre que está em volta, nessa cidade feia, nessa enorme Índia que constitui grande parte da cidade, que, infelizmente — ora, que desagradável! — não é toda igual ao seu bairro. Porque você não precisa da cidade, você só precisa de Moema (e talvez do aeroporto). O resto da cidade que se lasque. Você não precisa viver a cidade. Isole-se, que você vai viver melhor!

Claro que os autores dessa aberração provavelmente irão responder que o problema que têm em mente é o trânsito, etc. Mas, conhecendo a maneira de pensar da maior parte das elites paulistanas, penso que minha hipótese interpretativa não está muito longe da verdade. Elites essas que, seja por ação, seja por omissão, deixaram enormes regiões da cidade virarem terra de ninguém, um imenso corredor de passagem, abandonado e deteriorado, que serve apenas para separar o condomínio fechado do shopping center.

Muitas elites não gostam da cidade como um todo, desejam manter o espaço urbano segregado, com os pobres devidamente relegados ao “seu lugar”. Assim, grandes regiões se deterioram, por descaso do poder público, somado às pressões do capital imobiliário — que viola de todas as maneiras as regiões não regulamentadas, e força o governo a concentrar os recursos nas regiões ditas “nobres” — ao que se soma, finalmente, à falta de conscientização e organização dos moradores. Aí, as elites completam o círculo vicioso; dizem: “agora é que não quero mesmo ter mais nada a ver com aquilo ali! É feio, sujo, perigoso, tem enchente, não tem nada ‘legal’ para comprar, não tem lugares ‘legais’ para ir…”

E a deterioração torna-se irreversível…

Leitor/a, faça o contrário do que diz a campanha publicitária. Saia de Moema. Viva a cidade. Interaja com a cidade. Defenda a cidade. Cuide da cidade. Você é acima de tudo paulistano(a), brasileiro(a)!

(P.S. É claro que gosto do meu bairro, vejo qualidades nele. Claro que existem lugares e regiões e trajetos dispostos ao longo da cidade que me agradam particularmente. Mas não vejo a vida no bairro, a fruição do bairro, como incompatível com o cuidar da cidade como um todo. Além disso, gosto de garimpar e descobrir lugares inesperados e surpeeendentes fora da minha região.)

Duas telas de Escher… reais

De vez em quando, como se sabe, a vida imita a arte. Aqui estão dois singelos exemplos, capturados ao acaso. Primeiro, uma cena fotografada na obra ao lado de casa, em Santo André. Você nota alguma coisa estranha?

DSC_1801b

Só para refrescar a memória, aqui está a famosa “Waterfall” de M. C. Escher:

M. C. Escher, "Waterfall", fonte:  wikipaintings

Segundo exemplo: aqui temos uma cena fotografada após a chuva, durante uma de minhas caminhadas, também em Sto. André:

DSC_1822b

E aqui, para comparação, a obra de Escher, “Puddle”:

M. C. Escher, "Puddle", fonte: dana-mad.ru

Emoções urbanas

O simpósio Emoções urbanas: um simpósio sobre o estresse e a cidade (Urban Emotions: A Symposium on Stress and the City) acontece na semana que vem na School of Geography at Queen Mary, University of London, e visa promover uma reflexão, desde múltiplos pontos de vista, sobre as possíveis relações entre vida urbana e psicopatologia. A programação está disponível no site da universidade.

Fonte: Prof. Rhodri Hayward, via lista de divulgação MERSENNE.

Giant Steps

O título é da célebre composição de John Coltrane, que passou a ser um verdadeiro prefixo ou vinheta de Trane, e se tornou um verdadeiro standard do jazz moderno. Mas aqui não pretendo falar propriamente de música — isso é algo que fica para o meu outro blog, o Usina de Escuta.

O que acontece é que o título desse standard remete ao tema das caminhadas: o caminhante urbano sente-se capaz — mais do que isso, sente-se impelido — a dar “passos de gigante” (giant steps) de duas maneiras.

"Giant Steps". Giant's Causeway, na Irlanda do Norte. Foto: aprintis (Panoramio)

Uma: O fenômeno é bem conhecido de todo mundo que corre, caminha, pedala ou faz atividades aeróbicas em geral: após os primeiros dez minutos, as endorfinas levam a uma sensação de bem estar (conhecida em inglês como “runner’s high“, o “barato dos corredores”). A impressão é que poderíamos continuar caminhando ou correndo para sempre, indefinidamente.

Nesse momento, o praticante de caminhada deve exercer um certo grau de autocontrole para não se deixar levar de tal maneira que o faça perder o domínio sobre certos aspectos importantes da caminhada: o equlíbrio, a manutenção de um ritmo constante, a atenção ao relevo e às irregularidades do terreno, a segurança na pisada, o cuidado com o trânsito à sua volta e com as outras pessoas na rua, a visão periférica, etc.

Outra: A caminhada urbana pode ser vista como um modo de relacionar-se com a cidade — a cidade, esse organismo tão mais implacável, maciço e agressivo, tantas ordens de magnitude maior em tamanho do que a pessoa do caminhante. Vencer, passada a passada, as distâncias, o espaço urbano, — melhor: assenhorear-se dele, tornar esse espaço seu — é algo que tem uma carga simbólica, e não apenas simbólica, mas bem concreta também.

Foto: Fred R. Conrad / The New York Times

O caminhante urbano, e, muitas vezes, o pedestre de modo geral, exerce a posse da cidade de uma maneira específica. Ele não encara a cidade como meramente “aquela coisa extensa que se interpõe entre ele e seu destino, e que precisa ser transposta o mais rapidamente possível (de carro), e também da maneira mais protegida e isolada do ambiente que se puder”. As passadas do caminhante urbano, ao contrário, refazem os mesmos caminhos dos povos que, em tempos remotos, palmilharam aquelas terras; retraçam as pegadas do seus concidadãos e contemporâneos; reproduzem a trajetória dos cursos d’água que, em tempos imemoriais, esculpiram aquele terreno; dão o devido uso aosequipamentos urbanos.

Enfim, trata-se de um gesto que restitui, em alguma medida, o espaço da cidade àquele que é o seu legítimo dono (e que pode ceder, sob certas condições, o direito de uso aos automóveis). Isso, sem dúvida, é algo que causa uma sensação de bem-estar. Porque caminhar pela cidade — e isso vale não só para quem caminha por São Paulo, evidentemente: o meu leitor poderá aplicar o mesmo princípio à sua própria cidade, à cidade que ama — caminhar por ela, eu dizia, nos reassegura de que não somos meros usuários da cidade, não somos apenas inquilinos nela, mas sim que ela é nossa, e deve ser feita à nossa imagem e semelhança.

Foto: David Levene / The Guardian