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Novas vítimas da guerra no trânsito

Fonte: Senator BlogstetterNão se pode deixar de mencionar a verdadeira onda de atropelamentos de ciclistas e pedestres, por automóveis e ônibus, que vem crescendo nos últimos meses em várias cidades brasileiras. Algo está muito errado na maneira pela qual os veículos vêm usando o direito de usar a via — que deveria ser interpretado como um direito que lhes foi cedido pelo pedestre, que é a condição mais básica do cidadão.

O que se observa é que os ciclistas, os pedestres e os corredores estão, cada vez mais, sendo vistos como as “espécies mais baixas” na “cadeia alimentar” desse trânsito conflagrado no qual vivemos. Esse comportamento agressivo é reforçado pela relação psicanaliticamente complicada que muitos brasileiros ainda têm com o carro — aliás, um tema que soa surpreendentemente antigo, quando dito em pleno 2012, mas que ainda é válido.

Não quero generalizar, mas a experiência cotidiana me mostra (e creio que ao leitor também) que, em geral, o chamado ‘carrão’ varre o chamado ‘carrinho’ da frente como se fosse um inseto; o ônibus, apesar de ser o maior veículo, não está na relação direta de “maior tamanho = maior poder econômico”, mas em geral, também interage com o espaço urbano (e com os seus passageiros transportados) de forma agressiva; os carros hostilizam e são hostilizados pelos motociclistas, que, invidualmente, estão em situação de inferioridade, mas, quando em grupo, a situação se inverte; por fim, muitos — mas muitos mesmo — carros grandes, carros pequenos e motos hostilizam ciclistas e pedestres, que são, evidentemente, os mais fracos e sempre levarão a pior num confronto direto.

Posso dizer algumas palavras sobre a minha vivência pessoal, caminhando pela cidade como venho fazendo a vida toda, e de maneira mais intensiva e sistemática há quatro anos. Não há um dia — nem sequer um dia — em que, saindo para caminhar, eu não passe por pelo menos um episódio em que eu não me veja ameaçado, acuado, aviltado, intimidado e desrepeitado em meus direitos de pedestre por algum veículo.

A propósito, no dia 24/11/2011, fui atacado por um motorista insano que: (1), sem olhar para a frente, acelerou para cima de mim quando eu terminava de atravessar uma avenida larga na faixa de pedestres (e tendo iniciado a travessia quando o sinal ainda estava verde para os pedestres); e (2) depois de me ver, continuou na minha direção como se eu não existisse. Sim, esse comportamento tem nome — o que aquele motorista cometeu foi uma tentativa de homicídio contra mim, uma tentativa qualificada com dolo, pois tendo me visto, continuou na ação iniciada, assumindo as consequências do seu ato. Ele estava consciente de que, fazendo assim, iria me tirar a vida. (A propósito, não esperar o fim da travessia do pedestre é infração gravíssima de sete pontos.) Confesso que naquele momento — naquele “flash” de uma fração de segundo que passa na mente de todo mundo que se vê em circunstâncias assim —  me vi coberto com jornais, com as viaturas em volta… Salvei-me porque saltei como faz um saltador em distância, para me defender.

A situação não é nada animadora. Veja algumas das (inumeráveis) matérias que tratam do assunto:

[1] Estadão, 08/08/2011 – 20 pedestres são atropelados no 1º dia de fiscalização em São Paulo

[2] R7.com.br, 11/07/2011 – Mais de 50 mil brasileiros são atropelados todos os anos

[3] Correio do Povo, Porto Alegre, 25/02/2012: Ato marcará um ano de atropelamento de ciclistas na Cidade Baixa

[4] Renata Falzoni / ESPN, 02/03/2012: Mais uma ciclista morre atropelada na Av Paulista

[5] Folha de SP, 02/03/2012 – Manifestantes deitam na Paulista em protesto contra morte de ciclista

[6] O Estado de SP – Acidentes provocados por motoristas embriagados em 2011

[7] Folha – Land Rover que atropelou jovem em SP tem 26 multas | Folha, 28/07/2011 – Polícia muda investigação de atropelamento de jovem em SP | Estadão, 08/02/2012 – Casal envolvido no atropelamento de Vitor Gurman deverá pagar indenização

[8] Pedal.com.br – Quatro ciclistas atropelados hoje no Brasil

[9] Último Segundo, 13/06/2011 – Executivo da Lorenzetti morre atropelado após cair da bicicleta em SP

[10] Época SP, 29/112011 – Flores e depoimento contundente no dia da primeira audiência do caso Márcia Prado

Não é uma leitura fácil, mas é altamente instrutiva. Isso para não falar nos atropelamentos por jet skis — o local e o ambiente naqueles casos podes ser diferentes, mas as causas são fundamentalmente as mesmas: irresponsabilidade, direção alcoolizada, despreparo e má formação (para não falar em casos-limite de habilitação comprada), prepotência, desprezo pelas regras do convívio social, agressividade…

Na minha avaliação, tal situação é insustentável. O que está em risco é a própria possibilidade de termos uma sociedade minimamente civilizada nas grandes cidades. Qual é a solução para isso? Uma reforma de mentalidade. Educação. Fiscalização rígida. Revalorização do pedestre e do trasporte público. Mudança de visão, por parte de toda a sociedade, quanto à questão da mobilidade. Se necessário, imposição de limites mais duros à ditadura do automóvel.

Uma outra mobilidade é possível. Mas será preciso lutar por ela.

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Novas leituras

Nos últimos dias, vi alguns sites e livros que em breve merecerão comentários aqui, pois têm tudo a ver com o tema deste blog. Por ora, menciono apenas os títulos e links:

Car Busters – Journal of the Car-Free Movement | Blog

World Car Free Network

Feetfirst: Promoting Walkable Communities | Facebook

Choose Your Way Bellevue Blog | Facebook

World Streets: The New Mobility Agenda

World Transport Policy and Practice

Undriving (Facebook)

“Ned Ludd” (org) [escolha engraçada de um pseudônimo… veja aqui quem foi o Ned Ludd original] – Apocalipse Motorizado: A tirania do automóvel em um planeta poluído. 2a. ed. São Paulo: Conrad, 2005.

Duas entrevistas com o organizador: uma em texto e outra em áudio.

Comparando perspectivas sobre mobilidade

León Ferrari, "Autopista del sur" (1982/1997)

Pode ser um exercício intelectual e político muito interessante e esclarecedor comparar perspectivas diferentes sobre um mesmo tema — neste caso, a questão do transporte e da mobilidade. Reuni alguns textos, que delimitam quatro pontos de vista bem diferentes sobre o assunto — o ponto de vista das montadoras, o das empresas de transporte de carga, o de uma urbanista de esquerda, e o da comunidade científica, via grande imprensa semanal — que chamei de perspectivas A, B, C e D.

É fascinante observar como, dependendo do autor e/ou da parte interessada em cada caso, podemos distinguir abordagens bem diferentes, que se valem de conceitos diferentes — ou então definem diferentemente os mesmos termos –, privilegiam certos aspectos, à custa de outros — diferentes de caso para caso, — e empregam argumentos diferentes para defender as suas teses. Veja por si mesmo(a) e tire suas conclusões.

Perspectiva A:

Perspectiva B:

Perspectiva C:

Perspectiva D:

A análise crítica destes textos — identificando seus conceitos, argumentos e implicações — fez parte, originalmente, de uma atividade da disciplina de Pensamento Crítico que ministrei na Universidade Federal do ABC em 2011.

Fotos do Moving Planet SP 2011

A manifestação associada ao movimento Moving Planet (deflagrado pela ONG 350.org) ocorreu em São Paulo no dia 24/09/11 (na mesma semana do Dia Mundial Sem Carro e do Desafio Intermodal 2011). A passeata reuniu cerca de 500 pessoas, num trajeto que partiu do MASP, seguiu pela Av. Paulista e pela Rua da Consolação, e terminou no espaço Matilha Cultural.

O símbolo da manifestação era a bolha:

…bem entendido: saia da sua bolha — o automóvel…

A concentração inicial foi no vão livre sob o MASP…

… e o grupo fez uma escala na esquina daPaulista com a Consolação.

A manifestação teve o apoio da bateria…

… que fez uma parte do aquecimento debaixo do ‘domo geodésico’.

Alguns personagens da passeata:

Veja também o vídeo do Moving Planet SP 2011, e mais fotos aqui e no Flickr.