Arquivo da categoria: Lugares

Cidades são para perder-se

Rota em GentEste texto de Stephanie Rosenbloom para o NYT levanta um ponto interessante e válido. De fato, cidades são (também) feitas para perder-se, e esta é, de fato, uma arte esquecida ultimamente. Possuo afinidade com o ponto de vista da autora, tanto no seu contexto original quanto transportado para um outro.

Primeiro, quando viajo para outra cidade, especialmente se for em outro país, não gosto de roteiros nem excursões: parecem-me limitadores, uniformizadores e opressivos. Alguém se arroga o direito de decidir o que você deve ver, do que você deve gostar, como se deve deslocar. Transforma o viajante num mero ponto estatístico, confortavelmente alojado junto com outros pontinhos numa dispersão próxima ao redor de um valor médio — “médio” significando, muitas vezes, medíocre. (Isso pode mudar de figura, é claro, até por uma questão de segurança e prudência, quando você faz uma viagem para uma região inóspita e desconhecida, não-urbana, como uma trilha na mata, uma montanha, reserva natural, ou trajeto de lancha, etc. Andar por ali sem um guia seria brincar com a sorte.)

De minha parte, só costumo levar o mapa (ou ligo o mapa do celular) para me ajudar a encontrar o caminho de volta para o hotel. Fora isso, os verdadeiros tesouros que deparamos ao vagar livremente, e que assumem real significado para cada um de nós vagantes — embora talvez não correspondam à “média” — mais do que fazem valer a pena os desvios e volteios sobre os próprios passos.

Em segundo lugar, nas inumeráveis caminhadas por São Paulo, descobri igualmente inumeráveis lugares que jamais teria conhecido se me restringisse ao GPS ou ao Waze, ou então ao carro — que tem o efeito de transformar a cidade em que vivemos (note-se: a cidade em que vivemos!) em um mero complexo viário imenso, um simples corredor de passagem, um amontoado de edificações ao redor das avenidas. As avenidas, afinal, parecem ser hoje em dia “o que realmente importa” para nos deslocarmos — não mais nos deslocarmos de A para B, como acontecia ao longo dos milênios em que a espécie humana já viveu sobre a terra, mas sim, agora, do estacionamento em A até o estacionamento em B…

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Artistas e a cidade

Compartilho aqui no blog alguns exemplos interessantes e bonitos de telas que, pelas mãos de dois artistas, Margaret Dyer e Tony Allain (ambos estão no facebook), utilizando a mesma técnica (o pastel), exploram o tema da cidade contemporânea:

Margaret Dyer – 1:

Margaret Dyer – 2:

Margaret Dyer – 3:

Tony Allain – 1:

Tony Allain – 2:

Tony Allain – 3:

São Paulo e Buenos Aires, a comparação

Aqui, destacamos a versão “Cone Sul”, criada por Vivian Mota, daquele outro exercício feito por Muratyan sobre Paris e New York, objeto do post anterior. Esta versão, movida pela eterna (e carinhosamente cultivada) rivalidade BRA/ARG, é graficamente mais minimalista, fazendo alguns trocadilhos visuais. Parece menos pretensiosa e “moderna” também. Podemos não concordar com todos os paralelos e/ou contrastes propostos pela designer, mas, de todo modo, é outro exercício bem divertido.

Confira a íntegra do ensaio aqui.

Paris e New York — a comparação

Paris versus New York: a tally of two cities. Criado por Vahram Muratyan, este blog/livro é certamente perspicaz e bem realizado. No entanto, ele apresenta um olhar um tanto pretensioso e afetado, decididamente ajustado para agradar aos “modernos”, e excessivamente orientado para temas de moda. Mas é divertido mesmo assim. Vale uma olhada atenta para tentar ‘pescar’ as conexões e as ironias, às vezes não tão óbvias.

Confira a íntegra aqui.

Não saia mais de Moema?!?!?!

Não posso deixar de pensar no quanto uma recente campanha publicitária que está sendo veiculada, de algo que se denomina “Moema Tem”, coloca valores que são completamente opostos ao espírito de busca da cidadania-na-cidade — defendido por este blog — espirito que, a propósito, vem se manifestando fortemente na atual onda de mobilização popular. São vários spots, divulgados massivamente já faz algum tempo no rádio (ouvi na Band news fm, mas pode estar em outras). Quando ouvi o primeiro, pensei ter ouvido mal, ou no mínimo esperaria que o absurdo fosse corrigido nos próximos. Mas outros spots vieram, e todos terminando invariavelmente com a frase: “Acesse — e não saia mais de Moema!“. Você, leitor/a, talvez já tenha ouvido a moça cantando e terminando com essa frase.

Ora, essa é uma maneira terrível de pensar. Ela remete a uma visão de cidade, de espaço urbano, de vida, que contribui para o círculo vicioso trerrível em que se encontra São Paulo. A mensagem que está sendo passada por eles é, mais ou menos, esta:

Vamos, isole-se. Fique ilhado, no seu vale encantado, no pedacinho de Bélgica encravado dentro de São Paulo, moderno e descolado, todo com ar condicionado, blindado por sistemas de segurança. E aí não vai precisar sair e ter contato com essa gente feia e pobre que está em volta, nessa cidade feia, nessa enorme Índia que constitui grande parte da cidade, que, infelizmente — ora, que desagradável! — não é toda igual ao seu bairro. Porque você não precisa da cidade, você só precisa de Moema (e talvez do aeroporto). O resto da cidade que se lasque. Você não precisa viver a cidade. Isole-se, que você vai viver melhor!

Claro que os autores dessa aberração provavelmente irão responder que o problema que têm em mente é o trânsito, etc. Mas, conhecendo a maneira de pensar da maior parte das elites paulistanas, penso que minha hipótese interpretativa não está muito longe da verdade. Elites essas que, seja por ação, seja por omissão, deixaram enormes regiões da cidade virarem terra de ninguém, um imenso corredor de passagem, abandonado e deteriorado, que serve apenas para separar o condomínio fechado do shopping center.

Muitas elites não gostam da cidade como um todo, desejam manter o espaço urbano segregado, com os pobres devidamente relegados ao “seu lugar”. Assim, grandes regiões se deterioram, por descaso do poder público, somado às pressões do capital imobiliário — que viola de todas as maneiras as regiões não regulamentadas, e força o governo a concentrar os recursos nas regiões ditas “nobres” — ao que se soma, finalmente, à falta de conscientização e organização dos moradores. Aí, as elites completam o círculo vicioso; dizem: “agora é que não quero mesmo ter mais nada a ver com aquilo ali! É feio, sujo, perigoso, tem enchente, não tem nada ‘legal’ para comprar, não tem lugares ‘legais’ para ir…”

E a deterioração torna-se irreversível…

Leitor/a, faça o contrário do que diz a campanha publicitária. Saia de Moema. Viva a cidade. Interaja com a cidade. Defenda a cidade. Cuide da cidade. Você é acima de tudo paulistano(a), brasileiro(a)!

(P.S. É claro que gosto do meu bairro, vejo qualidades nele. Claro que existem lugares e regiões e trajetos dispostos ao longo da cidade que me agradam particularmente. Mas não vejo a vida no bairro, a fruição do bairro, como incompatível com o cuidar da cidade como um todo. Além disso, gosto de garimpar e descobrir lugares inesperados e surpeeendentes fora da minha região.)

Duas livrarias incríveis

Hoje eu gostaria de escrever (e também postar algumas fotos) sobre duas livrarias incríveis e muito especiais — cada uma em seu estilo — que tive o privilégio de conhecer: uma na Cidade do México e uma em Buenos Aires.

1 – Cafebrería El Péndulo – Cidade do México

Um verdadeiro paraíso. Para passar horas. Vários andares (parecem não ter fim), reunindo tudo que há de mais legal para nosotros: começando por uma livraria espetacular, sebo, café, loja de discos…

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… continuando com um restaurante super confortável (no alto), mais bar (tem excelentes mezcales e tequilas, e também serve ótimos tacos)…

… e mais: loja de discos, papelaria, revistaria e loja de presentes (que são aliás mais inteligentes, criativos e baratos do que em qualquer, digamos, Imaginarium da vida)…

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Aqui está o pêndulo propriamente dito — inspirado no pêndulo de Foucault — que dá nome ao lugar:

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Aliás, o café da manhã mais saboroso que tomei na vida foi aí, incluindo um “panqué” que era uma coisa do outro mundo.

Achei na El Péndulo uns discos difíceis de achar, de composições do mexicano Manuel Ponce (um dos meus preferidos entre os latinoamericanos do século XX), com o violonista Francisco Gil — sobre os quais pretendo escrever no meu outro blog Usina de Escuta:

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Na livraria, encontrei um Wittgenstein (a Gramática Filosófica, trad. de Luiz Felipe Segura, ed. bilíngue da UNAM), as obras completas de Sor Juana Inés de la Cruz (ed. pela Fondo de Cultura Económica) e mais alguns de Octavio Paz.

2 – Librería Alberto Casares – Buenos Aires

Todas as vezes que fui a Buenos Aires bati ponto aqui. Uma livraria digna de Borges. O silêncio e a quietude, o cheiro dos livros — que é um verdadeiro perfume — a luminosidade, a sensação de paz e isolamento do burburinho da rua estreita e movimentada (fica na Calle Suipacha 521)… Tudo isso nos transporta, de imediato, como que para um outro mundo.

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Tem raridades, primeiras edições, usados e, claro, livros novos. O próprio dono costuma nos atender, tratando a todos com a maior atenção. Também encontram-se mapas, gravuras e fotografias originais, e ainda partituras.

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Ali encontrei, por exemplo, várias edições diferentes de Cortázar e Borges (cada uma tem seu encanto), as Obras de Oliverio Girondo (ed. Losada), um raro Biología y medicina del siglo XIX, de Desiderio Papp e José Babini (Espasa Calpe, 1961), e a Historia de las ideas  en la Argentina – Diez lecciones iniciales, 1810-1980 de Oscar Terán, entre outros…

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Buenos Aires, como se sabe, é uma cidade fortíssima em livrarias. A concorrência é dura pelo coração de qualquer bibliófilo. Mas eu diria que gosto da Casares até mais do que da famosa El Ateneo, por exemplo…

Caminhando com Heisenberg em Helgoland

Foto: Pegasus2 / Sioux, fonte: Wikimedia CommonsEsta é uma caminhada que eu gostaria de fazer!

Na ilha de Helgoland, onde o jovem Werner Heisenberg formulou em 1925 as idéias centrais que logo iria desenvolver no histórico artigo “Sobre uma reinterpretação quântica das relações cinemáticas e dinâmicas” — documento fundador da mecânica quântica — enquanto caminhava à beira das falésias, convalescia da febre do feno e lia Goethe…

(Aqui, uma tradução em inglês do artigo de Heisenberg, in: Van der Waerden (ed), Sources of quantum mechanics || e aqui, o original em alemão)

2855575587_0e8f28fc1dAqui está uma foto (tirada por Pete Shacky) da placa comemorativa instalada em Helgoland pelo Instituto Max Planck e pela Sociedade Alemã de Física.

Teotihuacan, o design da água

Atraves_1_1983_Martins_FontesUm texto bem especulativo de Décio Pignatari (1927-2012) sobre Teotihuacan (da qual já falei neste blog), publicado no número 1(1983) da revista Através — ainda na edição da Martins Fontes; depois este título passaria a sair pela Duas Cidades.

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Exemplos de respeito e de desrespeito ao pedestre

Primeiro, na foto abaixo, uma evidência de que há pessoas incrivelmente egoístas, que simplesmente se consideram (e ao seu carro) como o centro do mundo, demonstrando não ter a menor noção de que existem outras pessoas que usam calçada para aquilo que ela foi primordialmente feita — para andar.  (Santo André, SP)

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Abaixo, um detalhe. Pode-se pensar em andar a pé por um lugar assim? Mas é óbvio que ao(a) morador(a) isso nem passou pela cabeça. A foto é exemplar pela atitude de desprezo implícita: “O importante é que possa estacionar com conforto. Transeuntes? Pesssoas? Outros? Hem? Ora, lixem-se”.

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E agora, para compensar, um exemplo de respeito ao pedestre. Na foto abaixo, uma solução simples, nada cara, que facilita a vida de todo mundo e mostra que o convívio é possível. Gestos desse tipo contribuem para preservar a cidadania — e, como a gente sabe, justamente é nas coisas pequenas que ela se constrói e consolida. Este(a) morador(a) está de parabéns. (Também em Santo André, SP)

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Dia de los Muertos na Ciudad de México

O Dia de los Muertos no México (2 de novembro) começa a ser celebrado vários dias antes da adata oficial. No final de Outubro já pude ver a decoração pela Cidade do DF, nas lojas e por todos os lugares, com enfeites de papel e muitas caveirinhas e esqueletinhos.

Os pessoal leva o humor, a paródia e a ironia muito a sério. Mergulham no simbolismo de uma maneira muito peculiar — que nós de outras partes demoramos para começar a compreender. Eles também aproveitam para começar a celebrar cedo em eventos artísticos, gastronômicos, escolares, etc, como já comentei em um post anterior.

Eles se dão cartões como estes:

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Outros exemplos flagrados em diferentes partes da cidade:

Aqui, uma autêntica muerta fashion, em uma das lojas chiques da Avenida Álvaro Obregón…

As lojas, restaurantes, baladas e até a propaganda nos pontos de ônibus se valem o simbolismo associado aos mortos.

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Até o centro de convenções da universidade em que aconteceu o meu congresso estava enfeitado para o Dia de los muertos:

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