Cidades são para perder-se

Rota em GentEste texto de Stephanie Rosenbloom para o NYT levanta um ponto interessante e válido. De fato, cidades são (também) feitas para perder-se, e esta é, de fato, uma arte esquecida ultimamente. Possuo afinidade com o ponto de vista da autora, tanto no seu contexto original quanto transportado para um outro.

Primeiro, quando viajo para outra cidade, especialmente se for em outro país, não gosto de roteiros nem excursões: parecem-me limitadores, uniformizadores e opressivos. Alguém se arroga o direito de decidir o que você deve ver, do que você deve gostar, como se deve deslocar. Transforma o viajante num mero ponto estatístico, confortavelmente alojado junto com outros pontinhos numa dispersão próxima ao redor de um valor médio — “médio” significando, muitas vezes, medíocre. (Isso pode mudar de figura, é claro, até por uma questão de segurança e prudência, quando você faz uma viagem para uma região inóspita e desconhecida, não-urbana, como uma trilha na mata, uma montanha, reserva natural, ou trajeto de lancha, etc. Andar por ali sem um guia seria brincar com a sorte.)

De minha parte, só costumo levar o mapa (ou ligo o mapa do celular) para me ajudar a encontrar o caminho de volta para o hotel. Fora isso, os verdadeiros tesouros que deparamos ao vagar livremente, e que assumem real significado para cada um de nós vagantes — embora talvez não correspondam à “média” — mais do que fazem valer a pena os desvios e volteios sobre os próprios passos.

Em segundo lugar, nas inumeráveis caminhadas por São Paulo, descobri igualmente inumeráveis lugares que jamais teria conhecido se me restringisse ao GPS ou ao Waze, ou então ao carro — que tem o efeito de transformar a cidade em que vivemos (note-se: a cidade em que vivemos!) em um mero complexo viário imenso, um simples corredor de passagem, um amontoado de edificações ao redor das avenidas. As avenidas, afinal, parecem ser hoje em dia “o que realmente importa” para nos deslocarmos — não mais nos deslocarmos de A para B, como acontecia ao longo dos milênios em que a espécie humana já viveu sobre a terra, mas sim, agora, do estacionamento em A até o estacionamento em B…

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Publicado em 21 abril 2015, em Caminhadas, Cidades, Espaço, Lugares, Paisagem urbana, Viagens. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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