Giant Steps

O título é da célebre composição de John Coltrane, que passou a ser um verdadeiro prefixo ou vinheta de Trane, e se tornou um verdadeiro standard do jazz moderno. Mas aqui não pretendo falar propriamente de música — isso é algo que fica para o meu outro blog, o Usina de Escuta.

O que acontece é que o título desse standard remete ao tema das caminhadas: o caminhante urbano sente-se capaz — mais do que isso, sente-se impelido — a dar “passos de gigante” (giant steps) de duas maneiras.

"Giant Steps". Giant's Causeway, na Irlanda do Norte. Foto: aprintis (Panoramio)

Uma: O fenômeno é bem conhecido de todo mundo que corre, caminha, pedala ou faz atividades aeróbicas em geral: após os primeiros dez minutos, as endorfinas levam a uma sensação de bem estar (conhecida em inglês como “runner’s high“, o “barato dos corredores”). A impressão é que poderíamos continuar caminhando ou correndo para sempre, indefinidamente.

Nesse momento, o praticante de caminhada deve exercer um certo grau de autocontrole para não se deixar levar de tal maneira que o faça perder o domínio sobre certos aspectos importantes da caminhada: o equlíbrio, a manutenção de um ritmo constante, a atenção ao relevo e às irregularidades do terreno, a segurança na pisada, o cuidado com o trânsito à sua volta e com as outras pessoas na rua, a visão periférica, etc.

Outra: A caminhada urbana pode ser vista como um modo de relacionar-se com a cidade — a cidade, esse organismo tão mais implacável, maciço e agressivo, tantas ordens de magnitude maior em tamanho do que a pessoa do caminhante. Vencer, passada a passada, as distâncias, o espaço urbano, — melhor: assenhorear-se dele, tornar esse espaço seu — é algo que tem uma carga simbólica, e não apenas simbólica, mas bem concreta também.

Foto: Fred R. Conrad / The New York Times

O caminhante urbano, e, muitas vezes, o pedestre de modo geral, exerce a posse da cidade de uma maneira específica. Ele não encara a cidade como meramente “aquela coisa extensa que se interpõe entre ele e seu destino, e que precisa ser transposta o mais rapidamente possível (de carro), e também da maneira mais protegida e isolada do ambiente que se puder”. As passadas do caminhante urbano, ao contrário, refazem os mesmos caminhos dos povos que, em tempos remotos, palmilharam aquelas terras; retraçam as pegadas do seus concidadãos e contemporâneos; reproduzem a trajetória dos cursos d’água que, em tempos imemoriais, esculpiram aquele terreno; dão o devido uso aosequipamentos urbanos.

Enfim, trata-se de um gesto que restitui, em alguma medida, o espaço da cidade àquele que é o seu legítimo dono (e que pode ceder, sob certas condições, o direito de uso aos automóveis). Isso, sem dúvida, é algo que causa uma sensação de bem-estar. Porque caminhar pela cidade — e isso vale não só para quem caminha por São Paulo, evidentemente: o meu leitor poderá aplicar o mesmo princípio à sua própria cidade, à cidade que ama — caminhar por ela, eu dizia, nos reassegura de que não somos meros usuários da cidade, não somos apenas inquilinos nela, mas sim que ela é nossa, e deve ser feita à nossa imagem e semelhança.

Foto: David Levene / The Guardian

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Publicado em 29 fevereiro 2012, em Caminhadas, Lugares, Paisagem urbana. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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