Arquivo mensal: fevereiro 2012

Giant Steps

O título é da célebre composição de John Coltrane, que passou a ser um verdadeiro prefixo ou vinheta de Trane, e se tornou um verdadeiro standard do jazz moderno. Mas aqui não pretendo falar propriamente de música — isso é algo que fica para o meu outro blog, o Usina de Escuta.

O que acontece é que o título desse standard remete ao tema das caminhadas: o caminhante urbano sente-se capaz — mais do que isso, sente-se impelido — a dar “passos de gigante” (giant steps) de duas maneiras.

"Giant Steps". Giant's Causeway, na Irlanda do Norte. Foto: aprintis (Panoramio)

Uma: O fenômeno é bem conhecido de todo mundo que corre, caminha, pedala ou faz atividades aeróbicas em geral: após os primeiros dez minutos, as endorfinas levam a uma sensação de bem estar (conhecida em inglês como “runner’s high“, o “barato dos corredores”). A impressão é que poderíamos continuar caminhando ou correndo para sempre, indefinidamente.

Nesse momento, o praticante de caminhada deve exercer um certo grau de autocontrole para não se deixar levar de tal maneira que o faça perder o domínio sobre certos aspectos importantes da caminhada: o equlíbrio, a manutenção de um ritmo constante, a atenção ao relevo e às irregularidades do terreno, a segurança na pisada, o cuidado com o trânsito à sua volta e com as outras pessoas na rua, a visão periférica, etc.

Outra: A caminhada urbana pode ser vista como um modo de relacionar-se com a cidade — a cidade, esse organismo tão mais implacável, maciço e agressivo, tantas ordens de magnitude maior em tamanho do que a pessoa do caminhante. Vencer, passada a passada, as distâncias, o espaço urbano, — melhor: assenhorear-se dele, tornar esse espaço seu — é algo que tem uma carga simbólica, e não apenas simbólica, mas bem concreta também.

Foto: Fred R. Conrad / The New York Times

O caminhante urbano, e, muitas vezes, o pedestre de modo geral, exerce a posse da cidade de uma maneira específica. Ele não encara a cidade como meramente “aquela coisa extensa que se interpõe entre ele e seu destino, e que precisa ser transposta o mais rapidamente possível (de carro), e também da maneira mais protegida e isolada do ambiente que se puder”. As passadas do caminhante urbano, ao contrário, refazem os mesmos caminhos dos povos que, em tempos remotos, palmilharam aquelas terras; retraçam as pegadas do seus concidadãos e contemporâneos; reproduzem a trajetória dos cursos d’água que, em tempos imemoriais, esculpiram aquele terreno; dão o devido uso aosequipamentos urbanos.

Enfim, trata-se de um gesto que restitui, em alguma medida, o espaço da cidade àquele que é o seu legítimo dono (e que pode ceder, sob certas condições, o direito de uso aos automóveis). Isso, sem dúvida, é algo que causa uma sensação de bem-estar. Porque caminhar pela cidade — e isso vale não só para quem caminha por São Paulo, evidentemente: o meu leitor poderá aplicar o mesmo princípio à sua própria cidade, à cidade que ama — caminhar por ela, eu dizia, nos reassegura de que não somos meros usuários da cidade, não somos apenas inquilinos nela, mas sim que ela é nossa, e deve ser feita à nossa imagem e semelhança.

Foto: David Levene / The Guardian

Anúncios

Verba Volant, Scripta Manent, Parte 2

Verba volant, scripta manent…

… mesmo que seja inscrito em um muro ou uma calçada.

Novas leituras

Nos últimos dias, vi alguns sites e livros que em breve merecerão comentários aqui, pois têm tudo a ver com o tema deste blog. Por ora, menciono apenas os títulos e links:

Car Busters – Journal of the Car-Free Movement | Blog

World Car Free Network

Feetfirst: Promoting Walkable Communities | Facebook

Choose Your Way Bellevue Blog | Facebook

World Streets: The New Mobility Agenda

World Transport Policy and Practice

Undriving (Facebook)

“Ned Ludd” (org) [escolha engraçada de um pseudônimo… veja aqui quem foi o Ned Ludd original] – Apocalipse Motorizado: A tirania do automóvel em um planeta poluído. 2a. ed. São Paulo: Conrad, 2005.

Duas entrevistas com o organizador: uma em texto e outra em áudio.

Comparando perspectivas sobre mobilidade

León Ferrari, "Autopista del sur" (1982/1997)

Pode ser um exercício intelectual e político muito interessante e esclarecedor comparar perspectivas diferentes sobre um mesmo tema — neste caso, a questão do transporte e da mobilidade. Reuni alguns textos, que delimitam quatro pontos de vista bem diferentes sobre o assunto — o ponto de vista das montadoras, o das empresas de transporte de carga, o de uma urbanista de esquerda, e o da comunidade científica, via grande imprensa semanal — que chamei de perspectivas A, B, C e D.

É fascinante observar como, dependendo do autor e/ou da parte interessada em cada caso, podemos distinguir abordagens bem diferentes, que se valem de conceitos diferentes — ou então definem diferentemente os mesmos termos –, privilegiam certos aspectos, à custa de outros — diferentes de caso para caso, — e empregam argumentos diferentes para defender as suas teses. Veja por si mesmo(a) e tire suas conclusões.

Perspectiva A:

Perspectiva B:

Perspectiva C:

Perspectiva D:

A análise crítica destes textos — identificando seus conceitos, argumentos e implicações — fez parte, originalmente, de uma atividade da disciplina de Pensamento Crítico que ministrei na Universidade Federal do ABC em 2011.

Brincando com o Google Earth, Parte 2

Em um post anterior, examinamos como o Google Earth exibe locais como o Pico do Jaraguá e a Serra do Mar. Agora, radicalizemos. Para ver como o Google Earth lida bem com o relevo, vejamos o que acontece no caso deste “morrinho” aqui. Quem encara uma caminhada por estas bandas, levante a mão. 🙂 Não tem estacionamento nem serviço de valet por perto… 🙂

Nada mau, hem? Claro que, como se trata de uma região muito especial da superfície terrestre, o Google Earth mobiliza dados de GIS (Graphical Information System) muito detalhados, para construir seu DEM (Digital Elevation Model) e exibir a renderização — o que não ocorre com o mesmo detalhamento relativamente a todos os locais. É interessante observar como os créditos mudam à medida que a gente move os controles. Imagine a quantidade de dados digitalizados que são necessários, e de quantas fontes diferentes eles são obtidos.