Arquivo mensal: janeiro 2012

No começo ou no final de toda caminhada…

… sempre há uma padaria. Pessoalmente, tendo a ver uma boa padaria como um oásis, um ponto fixo na mutabilidade maluca do cotidiano, uma estação de apoio, um ‘sistema integrado de suporte de vida’. Ali se conhece a vizinhança, provam-se as especialidades da casa, bate-se papo, mata-se a fome, mata-se o tempo, organizam-se as idéias, têm-se novas idéias, espera-se a chuva passar, observa-se o movimento da rua, lê-se o jornal, descobrem-se às vezes iguarias e produtos únicos, que só existem ali… E, principalmente, em uma padaria pode-se saborear um bom café expresso (a rigor, “espresso“, com “s“, que em italiano significa “espremido” ou então “expedito, rápido”). Este é, na minha opinião, o ponto principal, o fulcro, em qualquer padaria (além do pão na chapa). Quer para dar um ânimo extra antes de iniciar a caminhada, quer para reanimar, depois de vários quilômetros com subidas e descidas, um café (curto, de preferência) é indispensável.

Sou muito cético em relação a cafés moderninhos e franquias. Posso estar sendo romântico demais, mas penso que para fazer um bom café é preciso ter raízes, experiência acumulada de décadas, bem como simplicidade. As cafeterias ditas “de grife” — na minha opinião — raramente conseguem servir um café que se compare com um expresso bem tirado tomado em pé no balcão de uma boa e honesta padaria. (Nem falar em Starbucks, que para mim é uma prova cabal de como os americanos — que também têm lá suas muitas qualidades, assim como enormes defeitos — são capazes de pegar uma coisa boa como o café e transformar em algo abominável.)

Eis algumas das minhas preferidas — que, após muitas e muitas visitas, não me despontaram:

  • Euroville – Rua Tavares Bastos com Rua Cotoxó – Pompéia
  • Villa Real – Rua Carlos Vicari (continuação da Guaicurus) com Venâncio Aires, em frente à praça dos Inconfidentes – Lapa
  • Villa Grano – R. Fradique Coutinho com Rua Wisard, vizinha do Bar Empanadas e da Galeria Millan – Vila Madalena, aberta 24h
  • Dona Deôla – Rua Pio XI com Cerro Corá, em frente à Fapesp – Alto da Lapa
  • Brasileira – Rua Dr. Fláquer, São Bernardo, e Rua das Figueiras, Santo André
  • Bella Paulista – Rua Haddock Lobo com Luís Coelho, atrás do Colégio São Luís – Cerqueira César
  • Casablanca – Avenida Santo Amaro, entre a Afonso Braz e a Hélio Pellegrino, ao lado da FMU
  • Palácio do Pão – Rua Itamarati, em frente ao Ramalhão – Pq. Jaçatuba, Santo André

Villa Grano (fonte: http://www.totalspguide.com)

Estas se revelaram, na minha avaliação, em suma, padarias extremamente honestas. Quase todas elas, dir-se-ia, devido à sua variedade e fartura, talvez caíssem dentro daquela categoria das chamadas “superpadarias” — mas evito usar esse termo, porque, na imprensa, ele acabou adquirindo uma certa conotação de “padaria de bairro chique” — e, se há um aspecto que não me diz nada, e do qual, por sinal, quero distância, é esse. Bem, cada uma delas tem o seu detalhe especial: uma tem um suco delicioso feito na hora, outra tem um bom bufê de almoço, uma tem um pão na chapa espetacular, outra tem uma boa adega de vinhos, uma tem uma pizza saborosa (algo que, alas, eu não costumo saborear, pity…), outra tem um boa carta de cervejas, uma tem lanches suculentos e apetitosos… Todas têm bom café, preços (mais ou menos) justos, atendimento (quase sempre) ágil e banheiros limpos.

Bem, nem é preciso dizer que, uma vez estando a ida à padaria acoplada a uma caminhada, cumpre exercitar uma certa moderação, de modo a não “enfiar o pé na jaca”, como se diz, cedendo às maiores tentações oferecidas pelo estabelecimento em questão, e colocar a perder tudo aquilo que se conseguiu com a atividade física…

Mencionei acima o pão na chapa. Este também é um item que precisa ser analisado com a maior seriedade. Assim como o café ex(s)presso, o pão na chapa define uma enorme gama, um amplo espectro, em termos de qualidade — pode variar do sublime ao simplesmente intragável. Mas isso fica para outro post…

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Um pequeno passo para o ser humano…

Quanto aos calçados apropriados para caminhada urbana, uma coisa é certa: é absolutamente indispensável que eles sejam de cano alto, para proteger bem o tornozelo. E que tenham solado largo, com uma grande área de contato com o solo, para maximizar a estabilidade — nada de calçados com solado estreito. De preferência, dos bons fabricantes de calçados ditos “de aventura”, como Salomon, The North Face, Caterpillar, Timberland. Há também outras marcas mais econômicas, mas razoáveis, como Hi-Tec e Bull Terrier; porém os seus solados moldados são ocos por dentro, e se gastam rapidamente — durando menos de um ano, caso se faça caminhadas longas com regularidade. Importante: nem pensar em usar aqueles tênis levinhos ditos “de corrida”. Eles podem servir para o ambiente protegido e domesticado das academias, porém aqui fora é o mundo real, cheio de irregularidades, pedras soltas, degraus, raízes aparentes e outras anfratuosidades. E não queremos ter que lamentar uma torção de tornozelo, não é?

Uma boa calcanheira de silicone também pode ser útil, pois ajuda a minimizar o impacto. Calçados com solado de ar, como os da Nike e de alguns fabricantes de calçados de aventura, além dos chamados “sapatênis”, também não são recomendados neste caso, porque, segundo constatei, comprometem a estabilidade. A linha Stabil da Adidas, para handebol, poderia parecer uma boa possibilidade, uma vez que, com eles, é praticamente impossível torcer o pé (algo que resulta muito importante naquele esporte, cheio de acelerações e desacelerações laterais bruscas); o problema é que eles possuem apenas cano baixo, o que os torna adequados somente para terrenos estritamente planos; além do mais, verifiquei que, no meu caso específico, a posição do calcanhar não é boa, provocando dores. Um antigo modelo de tênis para basquete da Adidas, que tive anos atrás, era fabuloso para caminhadas — aliás foi precisamente naquela época, calçando-o, que comecei a consolidar o hábito de caminhar mais regularidade e intensidade. Aquele modelo tinha solado alto nas laterais, costurado — os atuais, voltados para ambientes indoor, às vezes nem sequer têm solado lateral — alto amortecimento e calçava como uma luva. Não consegui encontrar, entre os atuais calçados de basquete, nenhum que fosse semelhante.

De todo modo, há alguns dias criei coragem e resolvi fazer um upgrade em termos de calçados para caminhar pela cidade. (O anterior, uma velha bota tipo adventure, havia cumprido sua última missão, nas férias, fazendo trajetos por volta de 6-8 km em Juréia e Peruíbe, e aposentou-se precocemente por desgaste excessivo, após menos de um ano de uso.) Chegando eu a uma loja especializada em aventura, trilhas, camping etc, minha primeira reação foi engolir em seco com os preços. Fiz um teste com a americana The North Face, com solado tipo Vibram. Além de ser uma das mais caras, não dava muita sensibilidade na pisada; assemelhava-se a um trem de pouso do módulo lunar: quase indestrutível, capaz de enfrentar qualquer terreno, mas era muito rígida. A idéia, segundo me pareceu, é poder fincar o pé e ficar tranquilo de que ele vai ficar cravado ali até que se resolva tirá-lo dali, sem resvalar jamais — ora, isso talvez seja bom em se tratando de lamaçais e trilhas no mato, com pedras, mas não é para ambiente urbano. Acabei escolhendo uma Salomon Mission GTX, que é muito mais técnica, altamente anatômica e te dá, ao mesmo tempo, um forte respaldo para o pé, um bom grip em terrenos variados, e ao mesmo tempo permite sentir o terreno com muita precisão. Parece ter uma boa constituição e ser elaborada com bons materiais. Espero que o solado dure e cumpra as expectativas. Enfim, nos primeiros dias de uso a Salomon (vista na foto ao lado) está parecendo ser bastante boa.