Arquivo mensal: outubro 2011

A cidade tridimensional

Só comecei a ter realmente consciência do relevo e da superfície da cidade — a paisagem, como diz o geógrafo — quando passei a caminhar por ela. É como se o deslocamento por meios motorizados fosse gradualmente suprimindo uma dimensão inteira do espaço da cidade — a dimensão vertical. É como se o carro reduzisse a cidade a uma superfície meramente bidimensional, que precisa apenas ser cruzada de lá para cá. Como no mindset motorizado somente o destino importa, o percurso em si — com toda a riqueza de seus ‘acidentes’ geomorfológicos e seus múltiplos pontos de vista — passa a ser relegado ao estatuto de mero transtorno, apenas mais uma amolação.

A Avenida Sumaré...

... entre as colinas do bairro.

O caminhante, por outro lado, é capaz de recuperar essa dimensão suprimida. As colinas da Pompéia e de Perdizes, o sobe-e-desce da Vila Madalena, as encostas dos vales na Freguesia, no Alto da Lapa e em Pinheiros… Tudo isso dá às caminhadas uma riqueza, uma variedade extraordinária. É possível sentir a cidade, mais do que atravessá-la.

Mapa de relevo do Atlas Ambiental do Município de São Paulo (aqui o negativo, pois o positivo resulta difícil de visualizar)

A cidade de São Paulo tem, na realidade, uma estrutura que, em termos gerais, é aproximadamente a seguinte. O todo da região metropolitana faz parte do planalto atlântico. A região central da cidade é um espigão central cujas duas faces ou vertentes mais nítidas — norte e sudoeste — descem até as planícies dos dois principais rios, dividindo as suas bacias — o Tietê, que corre no sentido leste-oeste, e o Pinheiros, no sentido oeste-sul (após a inversão. A região da rua Cerro Corá, por exemplo, permite enxergar, a partir de uma mesma posição, os vales do dois rios, conforme se olhe para o norte ou para o sul.

O espigão central é perfurado artificialmente pelo túnel da avenida Nove de Julho.

A planície aluvial do Tietê, muito mais ampla do que a do Pinheiros, recebe também o desaguar dos rios Tamanduateí e Aricanduva, que correm quase paralelos na direção sudeste-norte. A vertente direita do Tietê (Casa Verde, Freguesia do Ó, Santana) e a vertente esquerda do Pinheiros (Morumbi, etc) são formadas por colinas altas e flancos íngremes, num perfil muito diferente das outras vertentes (o Butantã e a Cidade Universitária são exceções a essa regra). Os meandros labirínticos originais do Pinheiros, ao longo do vale, foram todos suprimidos pelas obras de retificação. Como sabemos, o sentido do rio pode ser invertido e “desinvertido” pela usina elevatória da Traição e pela barragem instalada no Tietê. (Quando a poluição ainda não era tão assustadora, podia fazer sentido levar a água do Pinheiros para a represa Billings, para reforçar a geração de energia por meio da Usina Henry Borden, no pé da serra, em Cubatão — hoje já não mais.)

O Pico do Jaraguá e a Serra da Cantareira...

...vistos do Alto da Lapa, perto da Ponte Anhanguera.

O sítio todo da área metropolitana está encaixado entre os contrafortes da Serra da Cantareira, ao norte — com o ponto extremo, o Pico do Jaraguá, a noroeste — e o maciço da Serra do Mar, ao sul.  Do bairro da Lapa se pode ver com clareza a Cantareira abraçando toda a região oeste. De alguns pontos da área metropolitana é possível enxergar as duas serras ao longe — por exemplo, na Paulista ou nas partes mais altas de Santo André.

O clássico livro do geógrafo Aziz Ab’Saber, Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo (aliás uma obra de juventude), funciona como um guia nesse processo de reeducar a nossa percepção.

Ter consciência dessa tridimensionalidade, do relevo da cidade nos ajuda até a nos orientarmos quando acontece de nos perdermos. Para onde a face desta colina está voltada? Para o lado de lá? Então para lá deve estar o rio tal, logo aqui em frente deve ficar o bairro tal, ao lado o bairro tal, daqui posso chegar a tais avenidas e praças… E assim por diante.

A cidade é um texto. A sabedoria ancestral das águas que já correram por toda esta região, ao longo de milhões de anos, tratou de deixar para nós esses marcos, esses indicadores gravados. Precisamos voltar a lê-los.

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Fotos do Moving Planet SP 2011

A manifestação associada ao movimento Moving Planet (deflagrado pela ONG 350.org) ocorreu em São Paulo no dia 24/09/11 (na mesma semana do Dia Mundial Sem Carro e do Desafio Intermodal 2011). A passeata reuniu cerca de 500 pessoas, num trajeto que partiu do MASP, seguiu pela Av. Paulista e pela Rua da Consolação, e terminou no espaço Matilha Cultural.

O símbolo da manifestação era a bolha:

…bem entendido: saia da sua bolha — o automóvel…

A concentração inicial foi no vão livre sob o MASP…

… e o grupo fez uma escala na esquina daPaulista com a Consolação.

A manifestação teve o apoio da bateria…

… que fez uma parte do aquecimento debaixo do ‘domo geodésico’.

Alguns personagens da passeata:

Veja também o vídeo do Moving Planet SP 2011, e mais fotos aqui e no Flickr.